Do La Belle Aurore ao Rick's Café Americain
Quando vemos a linda mulher entrando no Rick's, o olhar assombrado de Sam nos adverte que algo muito importante está para acontecer. Algumas cenas depois, acompanhamos por exatos 25 segundos o close sobre o rosto dela enquanto ouvimos a voz de Sam cantando. O que se passa em sua memória? O longo tempo que passa é interrompido por Rick que surge durão como sempre. Será o mesmo Rick?
O personagem eternizado a partir de então pela frase "Play it again, Sam!" é modelar de um tipo de experiência humana frequentemente negligenciada: a testemunha de uma paixão. Os amantes estariam realmente fixados em nossa memória sem todos os personagens secundários em torno deles? Eu ouso duvidar.
Quando posicionei-me pela primeira vez na sala de ensaios para ver Helena e seus atores, plenos de generosidade, levantarem a partir de improvisações o material original sobre o qual está agora construída essa peça, creio ter experimentado a mesma sensação de Sam: algo muito importante estava por acontecer. E aconteceu. Um mundo cheio de amantes transbordou em estórias escritas, faladas ou simplesmente sutilmente insinuadas. Coube então a mim a tarefa muito perigosa de tecer, urdir a trama.
Mas agora é chegado o momento da separação. Como Ilsa, a amante que deve seguir viagem e continuar o seu destino junto ao marido, os atores irão em temporada junto aos espectadores. E nós? Nós sempre teremos Paris.
O filme Casablanca (1942, de Michael Curtiz) e, como contraponto, a peça teatral Sonhos de um Sedutor (1969, de Woody Allen) estiveram habitando o nosso imaginário desde o surgimento da idéia original da interdição amorosa. Eles e a pergunta para a qual várias respostas apresentaram-se e continuarão eternamente se apresentando: afinal, o que interdita o amor?