O ressentimento do Tio Raul – a traição na obra de Nelson Rodrigues

André Levy (Tio Raul) e Sofia Vasconcellos e Sá (Glorinha). Foto Ana Beatriz Velloso.

Há um mês, quando cheguei em Lisboa, fui recebido pela hospitalidade dos amigos que aqui estão e também pelo convite de Anna Sant’Ana para dirigir a leitura de Perdoa-me por me traíres dentro do ciclo de leitura das peças do Nelson Rodrigues que ela produziu, em parceria com Bel Villela, na Casa do Coreto em Carnide.

O prazo foi muito curto para montar o elenco, esboçar uma encenação e ensaiar, mas o resultado foi muito positivo. Deixo aqui registrado o meu agradecimento público aos atores e atrizes portugueses e brasileiros que o protagonizaram: Bel Villela, Helena Stewart, Sofia Vasconcellos e Sá, Margarida Marinho, Eduardo Gaspar, Isaac Bernat, André Paes Leme, André Levy e Leonardo Vieira.

Já que não estou mais atropelado pela correria, posso agora me ocupar pensando em voz alta sobre a atualidade da obra de Nelson Rodrigues. Por razões óbvias, não pretendo fazer uma longa digressão. Foram ideias que surgiram nos ensaios com o elenco e que arrisquei debater com o público ao final da leitura. Aliás, a dúvida sobre a oportunidade da obra nos nossos dias sempre apareceu ao longo dos debates posteriores às diversas leituras. Há poucos dias, Lucélia Santos falou disso em entrevista, depois de participar da leitura de Vestido de Noiva e estar em nossa plateia.

Como eixo condutor desse artigo, vou usar a relação entre traição e ressentimento no personagem do Tio Raul de Perdoa-me por me traíres. A traição é um tema espinhoso no imaginário brasileiro. Um notável exemplo disso é o que aconteceu com a peça Calabar, o elogio da traição de Chico Buarque e Ruy Guerra, escrita em 1973. Na época, a ditadura proibiu a peça, o nome e a divulgação da proibição. Ressentimento é o nome de um pequeno livro sobre o tema, escrito por Maria Rita Kehl, que eu recomendo enfaticamente. A minha hipótese é que essa mesma relação entre traição e ressentimento está profundamente entranhada na atual conjuntura política brasileira. Não caberá aqui detalhar tudo isso: a obra de Nelson Rodrigues, os temas da traição e do ressentimento, a conjuntura política. Como atrativo, eu lanço mão de algumas palavras do livro – “o ressentimento é uma queixa insistente, repetitiva, que não aceita nenhuma forma de desagravo” – e a certeza de que, da perversidade que atualmente domina o noticiário, Nelson Rodrigues tiraria muitas outras grandes tramas para as suas peças, se ainda hoje estivesse vivo.

Então, vamos ao personagem! No Rio de Janeiro, em 1957, ano da publicação da peça, quem é esse senhor de boa família? O Tio Raul tem telefone ao seu dispor em casa e no escritório. O Tio Raul interna o irmão em uma casa de saúde na Gávea, bairro nobre da cidade, porque este pede para ser perdoado pela mulher que o traiu. O Tio Raul deseja a cunhada. O Tio Raul envenena a cunhada quando se dá conta que jamais será com ele que ela trairá o irmão. O Tio Raul é chamado ao consultório de um ginecologista “fazedor de anjos” (singelo eufemismo) que nunca tinha visto “mais gordo” para acompanhar a agonia de uma adolescente, amiga da sobrinha, causada por hemorragia durante o aborto ilegal. O Tio Raul, como em um acordo de delação premiada, não cogita denunciar o “miserável” que batia com a “cabeça nas paredes” e queria que ele “lhe cuspisse na cara” mas que, em troca, descreveu exatamente o “tipo” da sobrinha. O Tio Raul conclui daí que a sobrinha mente e que já mentia aos dois anos de idade. O Tio Raul está farto do silêncio da esposa e só quer “saber o que ela não diz, o que ela não confessa”. O Tio Raul confessa para a sobrinha… “Dia e noite, eu te criei para mim!”

Antes de continuar com o Tio Raul, eu quero voltar a 1957. Naquele ano, Juscelino Kubitschek, o presidente recém-eleito, finalmente punha em marcha a sempre adiada transferência da capital federal para o centro geográfico do país. Em um típico delírio à brasileira – ou seja, hiperbólico – Juscelino proclamou… “Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país (…) com (…) uma confiança sem limites no seu grande destino.” O poder econômico, burocrático e político, até então confortavelmente instalado na cidade do Rio de Janeiro durante séculos, via-se perante a ameaça de uma nova configuração que, à época, deve ter provocado muitas noites de insônia. Agora sabemos, uma nova configuração de poder nunca se efetivou. Os endereços mudaram, mas os poderosos não. Um gigantesco contorcionismo político foi necessário para isso. Os custos financeiros, humanos e ambientais foram gigantescos. Mas, principalmente a partir do golpe de 1964, a paz voltou a reinar nos lares das boas famílias. Diga-se de passagem que o enorme contingente de militares de pijama que ainda hoje superlota o falido balneário carioca é uma das heranças mais grotescas de toda essa gambiarra institucional.

Voltando… No terceiro e último ato, depois de confessar os seus próprios crimes, o Tio Raul acredita controlar a verdade e a mentira – e assim, a espontaneidade – da sobrinha, em um longo e torturante interrogatório. Como fez com a mãe, está decidido agora a condenar a filha e matá-la da mesma forma: por envenenamento. E por que está sempre decidido a matar a mulher que trai? Porque, simplesmente, ela deseja e porque, sobretudo, ela deseja outros que não ele. Mas, afinal, qual foi o crime de Glorinha, a sobrinha que ele pensava ter criado para ele? Ela e outras colegiais – com seus uniformes cáqui, meias curtas, cabelos rabo-de-cavalo, pastas debaixo dos braços, alunas dos melhores colégios, “as filhas de famílias fabulosíssimas”, “a fina-flor de 17 anos para baixo” – preferem se oferecer por dinheiro para fregueses com “imunidades” em uma casa “infanto-juvenil”. Pois bem, no ressentimento do Tio Raul aterrorizado diante da traição da sobrinha eu vejo refletido o ressentimento daqueles aterrorizados no final dos anos 50 pela traição de Juscelino. Eu vejo também refletido o mesmo ressentimento dos que recentemente, também se dizendo traídos, passaram a protagonizar mais um episódio de avanço para o passado tão comum na história brasileira.

Ao final, o Tio Raul em êxtase, arrastado pela volúpia da sobrinha e pela insinuação de um suicídio conjunto, deixa-se enganar toscamente e morre sozinho, bebendo do copo por ele envenenado. Glorinha, livre do medo que a oprimia, corre ao telefone e avisa que está a caminho da casa onde “vive-se tropeçando em imunidades” porque o tio “não se opõe”. Ao contrário, “concorda… de forma que está tudo azul”. Glorinha está assim, ao lado de Capitu, na coleção de adoráveis heroínas dissimuladas da literatura brasileira. Poucos dos leitores de Dom Casmurro se lembram que Machado de Assis decidiu que a sua heroína terminaria os seus dias sozinha no exílio. Meio século depois, Nelson Rodrigues deixa que o último destino de sua heroína possa ser imaginado segundo a preferência de cada leitor/espectador.