Em 2006, o Jorge Vasconcellos, durante o seminário sob sua orientação que nos preparava para A Arte de Ter Razão, citou que Schopenhauer era um dos autores de cabeceira de Machado de Assis. Pouco depois, fomos tomados pela intuição que mergulhar em sua obra seria uma manifestação de continuidade em nosso trabalho. Começamos a nos concentrar em seus personagens femininos. E, por fim, fomos irremediavelmente seduzidos por Capitu.
O centenário de sua morte deu-nos a oportunidade de ler e ouvir várias vozes que revelaram os mais diversos pontos de vista sobre sua vida e obra. Sedutor, obstinado e atrevido como sua personagem, ele deixou-nos de herança a sua genial capacidade de ser inacabado e, portanto, generoso com o futuro dele e presente nosso. Somente auto-exilado no Cosme Velho, poderia criar uma personagem como Capitu. Para mim, as palavras de Roberto Schwarz servem tanto à personagem como ao autor que a inventou: "Embora emancipada interiormente da sujeição paternalista, exteriormente ela tem de se haver com essa mesma sujeição, que forma o seu meio. O encanto da personagem se deve à naturalidade com que se move no ambiente que superou...".
Aos poucos, Capitu e Bentinho foram deixando de ser para mim nomes próprios e passaram a ser adjetivos. Hoje digo: "Fulano é muito capitu. Sicrano é muito bentinho". Eu dedico esse trabalho à Camila, uma jovem capitu cheia de dúvidas, e à Rosa, uma mulher capitu, capaz de diariamente se reinventar.