O olhar oblíquo de Capitu já foi objeto de muitas visadas desde que Machado de Assis imortalizou a personagem em seu Dom Casmurro. Ela é uma das mais célebres mulheres da literatura brasileira. O romance machadiano, à revelia da força de seus personagens masculinos, tem nela o seu epicentro. Não faz sentido adaptar Machado ao teatro de modo literal. As saídas transversais são as melhores para escapar de certos labirintos. O espetáculo A Fruta e a Casca consegue escapar fugindo da transliteração, buscando no tema da memória a chave interpretativa para nos revelar Capitu.
Dividir a personagem em duas parece ter sido a estratégia do autor para vencer as armadilhas do solipsismo que o monólogo pode encerrar. Capitu é ela e seu duplo: madura e jovem. Ou seriam seus fantasmas, suas lembranças, seus desejos? É tudo isso. Trata-se de uma espécie de radiografia da subjetividade, vista através da janela de sua alma: por intermédio de sua memória. Afinal, a memória, segundo Henri Bergson, é a chave para abrir as portas das dimensões virtuais de nossa subjetividade. Capitu apresenta suas lembranças como reminiscências de Eu profundo que resgata seu passado, não sem antes recusar o que não lhe justamente afetou, transformando este seu Eu em um Outro. Estamos diante de lembranças que são simultaneamente quasememória e maisquememória. Capitu inventa suas memórias, fazendo de Si um Duplo que comporta toda a melancolia do tempo que não pára de passar.