A personagem de Dom Casmurro traz a marca do silenciamento do desejo, característica da mulher do século XIX. Confinada ao lugar da esposa e da mãe, coube a esta mulher ser a guardiã da intimidade da família burguesa.
Não por acaso, foi neste solo histórico, no final daquele século, que Freud encontrou as suas pacientes histéricas, as quais utilizavam o próprio corpo como o teatro onde era possível encenar o gozo sexual reprimido.
Em A Fruta e a Casca, Capitu realiza uma espécie de auto-análise ao se reencontrar consigo mesma, há mais de 20 anos atrás. Manoel Prazeres oferece à personagem a possibilidade de dar voz ao desejo, buscando na trama do passado a potencialidade de reformulação do presente. Ao puxar o fio dessa memória, ela pode refletir sobre si mesma, reposicionando-se frente ao marido afastado e ao filho. Ao se descamarem as cascas, encontra-se a fruta, reconhecendo-se que, como nos ensina Machado de Assis, "uma estava dentro da outra". Mas esta outra só pode aparecer quando se busca atualizar o passado com o tempero e o sabor do presente.
A Capitu que surge no texto de Prazeres não é a mesma que estivera lá, outrora, mas, sim, a fruta que nasce no próprio ato teatral de fazer germinar, no presente, as narrativas do passado.